VIDA SAUDÁVEL, ENVELHECIMENTO E FATORES DE RISCO CORONARIANO


"Todo mundo quer viver muito,
mas ninguém quer ficar velho"
Jonathan Swift

Não resta dúvida que o envelhecimento com suas rugas e mazelas é uma das maiores aflições da vida. Desde os tempos mais longínquos, o homem busca o elixir da juventude. O atual conhecimento mostra que a senescência (o envelhecimento saudável) pode se tornar uma fase importante na vida, com colheita proporcionada pelas experiências vividas associada com um novo olhar sereno para a existência. O elixir da juventude na realidade é um conjunto de atitudes e comportamentos tomado desde a mais tenra idade que propicia ao homem uma vida mais saudável e proveitosa.

Os avanços tecnológicos e a melhora das condições de vida repercutiram em um aumento do tempo médio de vida da população em geral, basta lembrar que no início do século XX, a expectativa de vida era de, aproximadamente, 40 anos e, atualmente, atinge 85 anos no Japão moderno. Isso é reflexo das mudanças no saneamento básico, da oferta de alimentos, do advento dos antibióticos, e, sobretudo, da melhora no diagnóstico, no tratamento e prevenção de doenças. No entanto, esses avanços tecnológicos também trouxeram mudanças no estilo de vida que são prejudiciais à saúde, traduzindo-se no aumento da vida sedentária (redução da atividade física), da obesidade, da ingestão de alimentos gordurosos e industrializados, do aumento do tabagismo e bebidas alcoólicas e relações sociais e pessoais repletas de ansiedade e estresse. Esse cenário é perfeito para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, do câncer, de acidentes e do diabete.

Estudos multicêntricos propiciaram o conhecimento dos principais fatores de risco para o aparecimento de doenças cardiovasculares, que são as principais causas de mortalidade nos países em desenvolvimento e desenvolvidos. Os fatores de risco são características ou doenças que tornam o indivíduo mais suscetível a desenvolver doenças cardiovasculares. Para melhor compreensão e também abordagem preventiva, dividimos em fatores de risco não modificáveis, ou seja, aqueles que não podem ser mudados e, fatores de risco modificáveis, sobre os quais podemos atuar de forma constante e ativa prevenindo a ocorrência de doenças cardiovasculares.

Os fatores de risco não modificáveis são o sexo, a idade e a herança hereditária. O sexo masculino tem maior predisposição a desenvolver doenças cardiovasculares. Há um aumento de risco para as mulheres após a menopausa devido, provavelmente, a perda da proteção que o hormônio feminino oferece. Quanto mais velho for o indivíduo maior o risco de doenças cardiovasculares assim como a presença de doença cardíaca entre os parentes diretos (por exemplo, pais, irmãos, tios, filhos) antes dos 60 anos.

Os fatores modificáveis mais importantes são: tabagismo, colesterol elevado, pressão alta, diabetes, obesidade, falta de exercício físico, estresse e depressão. É fundamental saber que quanto maior o número de fatores de risco a pessoa possuir, maior a chance de desenvolver a doença cardiovascular.

1. Tabagismo - a abolição do tabagismo talvez seja o ato de maior repercussão para a melhora da saúde pública. As inúmeras substâncias nocivas absorvidas com ato de fumar causam alterações na contratilidade dos vasos sangüíneos, acelera o desenvolvimento da aterosclerose e predispõe a formação de coágulos na circulação. É o talvez o único fator de risco que depende exclusivamente da vontade do indivíduo e os benefícios com a parada do fumo são sentidos imediatamente.

2. Colesterol - é essencial para a formação de hormônios e sais biliares, no entanto, é um dos componentes mais importantes das placas de gordura - os ateromas - que se formam nas paredes dos vasos e serão responsáveis pelos ataques cardíacos e derrames. O nível de colesterol é determinado geneticamente e pelo tipo de alimentação ingerida. Quanto maior a quantidade de gordura animal presente na dieta maior será o risco. Portanto, é indispensável reduzir o consumo de gordura animal.

3. Pressão alta ou hipertensão arterial - a ocorrência de níveis de pressão arterial acima de 140x90 mmHg, caracteriza a pressão alta. É uma patologia muito freqüente e na sua grande maioria é de causa desconhecida, com forte tendência familiar. Um outro fator importante, é que também na maioria dos casos, a pressão alta é assintomática, ou seja, não ocasiona sintomas; o mais freqüente, é que o primeiro sintoma pode ser um derrame ou um infarto. Isso traz algumas implicações importantes; a primeira, é que ela só pode ser detectada através da medição rotineira e correta da pressão arterial e a segunda, é que deve ser tratada com regularidade apesar de não ter sintomas. Ela causa uma sobrecarga acentuada ao coração e um envelhecimento prematuro dos vasos.

4. Diabete melito - também uma doença que vem aumentando a sua incidência e prevalência nas últimas décadas. É causada pela deficiência da produção de insulina pelo pâncreas ou por uma resistência a ela. Esse hormônio promove a absorção da glicose da corrente sangüínea pelas células do corpo. Como nas fases iniciais da doença os sintomas são poucos, é fundamental o controle dos níveis séricos de glicose para o diagnóstico precoce. O diabete aumenta o risco de doenças circulatórias de uma maneira geral, incluindo as doenças coronarianas. O objetivo do tratamento é manter o nível de glicose o mais próximo do normal, o que torna os problemas cardíacos e circulatórios menos comuns.

5. Falta de exercício físico - a vida moderna cercada de facilidades tornou as últimas gerações sedentárias, esse fato tem contribuído para o aumento da prevalência das doenças cardiovasculares. É o fator de risco mais comum nos países em desenvolvimento e desenvolvidos, atingindo cerca de 70% da população. Trabalhos mostram que a prática regular de atividade física simples (andar, pedalar, jardinagem, subir escadas, etc) por 30 minutos, três vezes por semana, reduz de forma significativa o risco de eventos coronarianos.

6. Obesidade - a falta de atividade física associada à ingestão aumentada de carboidratos, alimentos gordurosos e industrializados têm contribuído para a ocorrência de uma verdadeira "epidemia" de obesidade.

7. Estresse e depressão - embora não se tenha provado cientificamente a ação do estresse e dos tipos de personalidade nos eventos coronarianos, não se consegue negar a sua importância na gênese das alterações vasculares e aumento do risco.

Mudanças no estilo de vida e a aquisição de hábitos saudáveis promovem significativa redução desses males. A busca de um envelhecimento saudável e, na velhice, da manutenção das melhores condições possíveis começa por uma melhora da alimentação desde a infância (reduzindo a ingestão de gordura animal e aumentando o consumo de fibras, verduras, legumes e frutas), uma vida mais ativa, a abolição do fumo e das bebidas alcoólicas, controle do estresse e da depressão e o tratamento sistemático e regular da pressão alta, do diabete e dos distúrbios ligados ao colesterol e triglicérides. Todos esses fatos aliados a uma valorização das relações humanas e a busca constante do autoconhecimento serão responsáveis por mais qualidade nos melhores anos de nossa vida.

Para finalizar não podemos deixar de falar da esperança que a terapêutica genética representa no controle dos fatores de risco cardiovasculares.


Dra. Angela Cristina Silva dos Santos
Cardiologista
Serviço de Prevenção e Reabilitação Cardiovascular do InCor
Instituto do Coração - HC-FMUSP
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